Varejo e universidades se mobilizam para fazer descarte correto de medicamentos vencidos

Fora do prazo de validade, os remédios também são lixo. Mas como contêm substâncias consideradas perigosas, que podem contaminar a água e o solo, não é aconselhável descartá-los no lixo comum. Sem uma lei que estabeleça o quê o cidadão deve fazer com comprimidos, pílulas e frascos vencidos, o varejo se une a fabricantes e universidades em busca de alternativas para o destino adequado desses produtos.

O projeto de extensão Descarte Correto de Medicamentos Vencidos, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), se iniciou em 2006 e ganhou força no início deste ano. Com o apoio da rede de farmácias Panvel, uma das maiores do Estado, os postos de coleta em Porto Alegre subiram de dois para 30. De janeiro a outubro, quase 2 mil toneladas já foram recolhidas e encaminhadas para um aterro de resíduos perigosos.

A demanda comprova a dificuldade encontrada pelas pessoas para descartar o que vence o prazo na famosa “farmacinha” de casa. “Nossos clientes chegavam com dúvidas no balcão, por isso decidimos começar o projeto”, diz Leonor Pinto Moura, farmacêutica do Grupo Dimed/Panvel.

Em São Paulo, uma parceria entre poder público, varejo e indústria originou o projeto-piloto Descarte Correto de Medicamentos. Desde a metade deste mês, cinco drogarias que ficam no interior de hipermercados do Grupo Pão de Açúcar contam com urnas de coleta de medicamentos. A presença da Eurofarma, que está entre as cinco maiores produtoras de medicamentos do país, e do próprio Pão de Açúcar possibilitou o treinamento dos funcionários e a proximidade com o público.

Enquanto isso, o Departamento de Limpeza Urbana de São Paulo (Limpurb) recolhe os dejetos e os encaminha para a incineração. Somadas, as cinco drogarias recebem mais de um milhão de pessoas todos os meses. Para o primeiro trimestre do ano que vem, a ideia é expandir a iniciativa para outras 60 farmácias da capital paulista. “A responsabilidade social é um valor, então buscamos melhorar todos os nossos processos. Assumir a missão de dar opção e informação para as pessoas faz parte disso”, garante a diretora de Sustentabilidade e Novos Negócios da Eurofarma, Maria Del Pilar Muñoz.

A questão diz respeito não só à saúde do ambiente, como também à das pessoas. Coordenadora do projeto de descarte da UFRGS, a farmacêutica e doutora Louise Jeanty Seixas lembra que o tratamento da água que chega à torneira não atinge certas substâncias presentes nos medicamentos. Ou seja, com o descarte incorreto, o cidadão pode estar contaminando a água de uma cidade inteira. Essa ingestão involuntária, destaca Louise, pode, inclusive, afetar futuros tratamentos médicos.

Enquanto varejo e academia tomam a frente da solução do problema, a formulação de uma norma brasileira é discutida de forma embrionária na Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), sem previsão de conclusão. Isso significa que, no Brasil, ainda não existe uma lei que determine o descarte correto de medicamentos por parte do cidadão. Por agora, a informação parece ser o único caminho possível para reduzir o impacto desse lixo no ambiente e na vida das pessoas.