Terremoto no Japão deverá ter impactos limitados no Brasil, diz BofA Merrill Lynch

Os terremotos e o tsunami que atingiram o Japão continuam tendo consequências drásticas, principalmente por conta dos riscos de vazamento nuclear na usina de Fukushima Daiichi. A devastação desses eventos naturais levanta dúvidas sobre qual será o seu verdadeiro impacto no âmbito de investimentos e relações comerciais do Japão com outros países, sem contar dos choques que podem ocorrer no fluxo global de capitais.

Se para muitos países ainda há dúvidas sobre como será a relação com os japoneses daqui pra frente, para o Brasil as coisas parecem mais claras, seja no campo de investimentos provenientes daquele país ou então no aspecto comercial, já que não são esperados impactos muito significativos, de acordo com a avaliação feita por Virgílio Castro Cunha e David Beker, analistas do Bank of America Merrill Lynch.

Olhando primeiramente para o fluxo no mercado de capitais, a dupla do banco escreve em relatório que é muito improvável que as aplicações dos fundos japoneses deixem o Brasil após as recentes tragédias, citando como um dos motivos justamente a taxação de 6% em IOF (Imposto sobre Operações Financeiras) para investimentos estrangeiros no mercado brasileiro, exceto ações, cobrança que foi elevada em outubro de 2010 pelo governo brasileiro justamente para arrefecer o fluxo de capital especulativo.

Segundo Cunha e Beker, a tarifa mais alta do IOF acaba fazendo com que os investidores japoneses mantenham suas aplicações no mercado brasileiro. Outro ponto destacado por eles que também tem influência no menor fluxo de resgate é que a maior parte dos investimentos desses portfólios é proveniente de investidores de varejo.

Ainda sobre investimentos, mas agora partindo para o campo econômico, os dois analistas do BofA Merrill Lynch ressaltam que nos últimos 10 anos o fluxo de capital japonês para o Brasil somou cerca de US$ 13 bilhões em IED (Investimento Estrangeiro Direto), o que representa apenas 5% do total destinado para cá no período (cerca de US$ 255 bilhões). Além disso, eles comentam que o Brasil pode acabar funcionando como válvula de escape para a capacidade produtiva japonesa, o que deverá manter o fluxo atual de investimentos. “Não acreditamos que esse fluxo seja significativamente afetado, tendo em vista que parte das plantas de produção japonesa, especialmente do setor automotivo, possa ser desviado para o Brasil no curto prazo”, afirmam Cunha e Beker.

A participação japonesa tanto nas importações quanto nas exportações brasileiras também caíram sensivelmente na última década. De 2010 para 2010, as exportações do Brasil para o país asiático passaram de 4,5% para 3,5%, enquanto as importações brasileiras vindas daquele país recuou 1,5 ponto percentual, para 3,8%. Isso também acaba minimizando possíveis impactos na balança comercial do País.

Mantendo o foco no campo comercial, os analistas do Bank of America dão ênfase às exportações de minério de ferro do Brasil para o Japão, que representam 45,8% do total vendido para lá. Embora o efeito avassalador dos terremotos e do tsunami deva impactar a produção siderúrgica japonesa e, consequentemente, a demanda por minério, a reconstrução do país provavelmente impulsionará essa demanda nos próximos trimestres.

Para dar sustentação a essa opinião, a dupla do banco relembra o terremoto de Kobe que atingiu o Japão em 1995, citando que naquele ano as exportações brasileiras cresceram 20% na comparação com o ano anterior. “Então , excluindo o cenário pouco provável de que o terremoto funcione como um catalisador negativo para os preços das commodities (tendo em vista a menor demanda vinda do Japão), o impacto nas exportações brasileiras provavelmente será limitado”, acreditam Cunha e Beker.

Por outro lado, nas importações, o banco de investimentos destaca que o segmento que engloba veículos e autopeças, responsável pela maior participação nas compras brasileiras vindas do Japão (12,1% do total), deverá sentir efeitos negativos nos próximos meses.