“Luxo acessível e parcelado é promissor”, diz editora de moda

No mundo das editoras de moda, Suzy Menkes, 67, é um caso à parte. Suas críticas de desfiles para o jornal “International Herald Tribune” são geralmente incisivas, para o bem e para o mal, fato raro num mercado em que conteúdo editorial e anunciantes caminham de mãos dadas. “Tenho sorte de trabalhar para um jornal que me dá liberdade de dizer o que penso, que não espera que eu seja um porta-voz das grifes. Se estivesse em uma revista, certamente não teria essa chance de ser transparente”, disse, em entrevista à Folha.

E as marcas, ao que parece, não guardam mágoas da editora. Várias delas mandaram seus representantes a São Paulo para falar no seminário sobre luxo comandado por Suzy e pelo “IHT”.

A editora tentava trazer o evento ao Brasil há dois anos, mas só agora conseguiu. “Chegamos junto com a consolidação da classe média como força de consumo. É esse segmento que colocou o Brasil em posição de destaque no mercado de moda e é dele que virá o crescimento”, diz.

Para Suzy, o luxo no Brasil não deve ser entendido a partir dos produtos ultracaros, embora haja também espaço para eles. “As compras que fazem volume no total não são as de produtos que custam R$ 20 mil, mas do que custam na faixa de R$ 1 mil, R$ 2 mil”, analisa. A editora lembra que, apesar de uma peça de roupa de R$ 1 mil não ser exatamente barata, ela está dentro do segmento do chamado luxo acessível. E a cultura do parcelamento é o grande trunfo do Brasil nessa jogada.

Para ela, mesmo com as facilidades para viajar ao exterior, onde os produtos de grifes de luxo como Chanel e Marc Jacobs chegam a custar menos da metade dos preços praticados por aqui, parcelar as compras ainda pode ser mais vantajoso. “Em nenhum outro lugar dos EUA ou da Europa você pode usar seu cartão de crédito para pagar uma bolsa em 10, 12 vezes. Isso abre ao consumidor a capacidade de planejar suas compras e de comprar mais produtos ao mesmo tempo”, afirma.

Suzy afirma que pensou na escalação de nomes para seu seminário a partir da ideia de troca de experiências. “Ninguém veio aqui para catequisar, muito menos para impor modelos. O Brasil e as grifes estrangeiras terão de trabalhar em conjunto, o que proponho são conversas de duas vias”, conta.

No line-up de palestrantes, grifes estrangeiras desejadas no mercado nacional, como a de Christian Louboutin, dividem espaço com marcas que estão aportando no Brasil, caso da Coach, que deve abrir suas primeiras lojas locais em 2012. “Pense no shopping Iguatemi, no case das Havaianas. Essas empresas têm muito a ensinar, são modelos de negócios que os estrangeiros devem estudar”, diz.

Mas num tempo em que o movimento Occupy Wall Street (que acima de tudo prega o fim do capitalismo) tem inspirado jovens de todo o mundo a deixar de lado os valores consumistas, como fica o futuro do mercado de luxo? “O luxo, imagino eu, terá seu lugar em qualquer alternativa possível ao capitalismo. As grandes mudanças, se vierem, devem ser focadas na economia básica: comida, moradia, transporte.”

Suzy fica pensativa, para por um instante e continua. “Acredito que o desejo pelo luxo, pela beleza, seja algo humano e isso deve sobreviver às reviravoltas econômicas de qualquer maneira”.