O anúncio de possíveis medidas que poderiam frear a desvalorização do dólar frente ao real fez com que a cotação da moeda estrangeira sofresse forte variação na tarde de ontem (04/01). Com a convocação da mídia para coletiva de imprensa, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, conseguiu deixar o mercado assustado, o que fez com que o dólar sofresse forte variação, com valorização de 1,21%, e atingisse o valor de R$ 1,67. A entrevista, no entanto, serviu apenas para que o governo mandasse seu recado de que, se houver necessidade, haverá mudanças.
“Não mediremos esforços para impedir que o dólar derreta, seja direta ou indiretamente”, afirmou o ministro. Depois do pronunciamento, a moeda norte americana voltou ao patamar de R$ 1,66 na venda. O encontro serviu apenas para ressaltar os esforços da nova equipe econômica de conter a inflação e por consequência conseguir redução da taxa básica de juros (Selic), o que será feito em um primeiro momento com a redução dos gastos orçamentários. “Estamos promovendo um estudo minucioso em cada ministério. O corte não será linear”, afirmou Mantega.
Para o ministro da Fazenda, são inúmeras as medidas que podem ser adotadas para conter a desvalorização da moeda estrangeira frente ao real, não apenas um significativo aumento do Imposto sobre Operações Financeiras (IOF). “Do ponto de vista cambial, temos várias medidas que podemos tomar além do IOF. São infinitas as medidas”, relatou, e completou dizendo que ao longo do ano o governo pode se posicionar para evitar especulação cambial no País. “Nós podemos administrar ingressos de capitais que possam vir a causar movimento cambial especulativo”, disse o ministro, e acrescentou: “Há outras medidas tributárias que vamos anunciar ao longo de 2011”.
Para Raphael Marcello, economista da Tendências Consultoria, o mercado reagiu como o esperado frente a possíveis mudanças, mas não há necessidade de alarde uma vez que os impulsionadores da desvalorização – os Estados Unidos e a Europa – sinalizam que em 2011 o cenário econômico não será tão negativo. “É preciso esperar como ficará a cotação nos próximos dias, pois nesta semana teremos o anúncio dos índices de emprego nos Estados Unidos e as previsões do PIB na zona do euro, a serem anunciados até sexta-feira.”
O economista também não arrisca fazer previsões de como reagirá a cotação do dólar com possíveis mudanças, mas acredita que tais medidas não sejam adotadas tão cedo, uma vez que é necessário atentar aos resultados internacionais. “Mudanças poderão ocorrer caso os resultados dos EUA e da Europa indiquem uma forte crise financeira, mas com a recuperação em vista desses países, é possível que o dólar volte a ter valorização até o final deste ano”, enfatiza Raphael.
Para o professor de Administração da ESPM, José Amato Baliam, a iniciativa do Ministro mostrou a preocupação do governo com a questão. O especialista argumentou, em entrevista ao DCI, que medidas de médio prazo terão bons efeitos na questão cambial. “Não é de hoje que medidas para conter a desvalorização têm sido discutidas pelo Ministério da Fazenda. Algumas foram tomadas, mas é necessário melhorar a competitividade das empresas brasileiras para que a economia sinta essas mudanças”, explica Baliam. O professor enfatiza também a necessidade de se ampliarem os mecanismos de ajuda às importações e a melhoria da infraestrutura nacional para que o câmbio não se torne um fator contra e realmente seja possível atingir as metas do novo governo.
“É preciso investir em portos, aeroportos, sistema de transporte ferroviário para que as empresas possam ser mais competitivas. É necessário investir na exportação, assim será possível sentir uma melhoria na cotação do câmbio”, explica. Baliam ressaltou também outras medidas empregadas em 2010 que tentaram conter a desvalorização da moeda norte-americana, como a aquisição de reservas.

