Passada a capitalização da Petrobras, a BM&FBovespa terá condições de ganhar impulso ainda em 2010. Também será mais fácil segurar a trajetória de apreciação do real, que sobe desde julho devido à operação. A capitalização da Petrobras praticamente secou o apetite do mercado de capitais para novas ofertas de ações e mexeu com o rumo da taxa de câmbio. Desde julho, quando a oferta ganhou corpo, o real já subiu 4,75%.
Na noite da última quinta-feira (23/09), a empresa anunciou que levantou R$ 120,36 bilhões (US$ 70 bilhões) na maior venda de ações já feita no mercado de capitais. O montante equivale a 4,2% do PIB brasileiro em 2009. Desse total, até R$ 74,8 bilhões virão do governo na forma de barris de petróleo. Dinheiro assegurado até agora são R$ 45,6 bilhões. A captação supera as ofertas da japonesa NTT (US$ 36,8 bilhões) e do chinês AgBank (US$ 22,1 bilhões).
Segundo os bancos de investimento, a operação movimentará perto de US$ 20 bilhões em recursos de estrangeiros, provocando excesso de dólares no país. A expectativa inicial era que a Petrobras trouxesse US$ 35 bilhões ao país. A liquidação financeira da capitalização da estatal ocorrerá no dia 29, mas os recursos não entram necessariamente nesse dia. Parte, inclusive, já teria chegado nos últimos dias, derrubando as cotações da moeda americana de R$ 1,77 para R$ 1,72 (queda de 2,9%) desde o dia 13. Se não fosse o ministro Guido Mantega ameaçar intervir com o Fundo Soberano do Brasil, que deve começar a comprar dólares, a moeda poderia ficar abaixo de R$ 1,70 ainda neste mês.
Com a conclusão da operação da Petrobras, empresas de consumo, agronegócio e infraestrutura devem “desengavetar” antigos projetos para captar recursos. Desde abril praticamente não ocorrem mais vendas de ações no país, só saíram as ofertas da Renova (de R$ 150 milhões) e do Banco do Brasil (R$ 9,76 bilhões). Na esteira da Petrobras, porém, outras empresas de petróleo e gás pretendem obter recursos do mercado. Na CVM (Comissão de Valores Mobiliários), estão em análise os IPOs (oferta inicial de ações) da espanhola Repsol e da australiana Karoon, ao mesmo tempo concorrentes e parceiras da Petrobras. Há também a da HTR Participações, empresa formada por engenheiros que trabalharam na Petrobras e decidiram formar uma empresa própria para explorar petróleo e gás.
A dez dias da eleição presidencial, a capitalização marca uma nova fase da Petrobras, agora com maior participação do governo. Com valor de mercado alçado para US$ 270 bilhões, a engenharia financeira transforma a estatal brasileira na segunda maior empresa do mundo, atrás apenas da americana ExxonMobil. Apesar de críticas e rumores contrários, a adesão dos maiores fundos de investimento do mundo à oferta de ações teria superado mais de uma vez e meia a demanda.
Na semana passada, esses fundos falavam que poderiam não entrar na oferta por conta de riscos da operação no pré-sal, da diluição dos lucros com mais acionistas e do desrespeito aos minoritários. Aos fundos interessava derrubar ao máximo o preço dos papéis na Bolsa para formar um valor menor na oferta de ações. As novas ações saíram a R$ 29,65 (ON) e a R$ 26,30 (PN), com desconto em relação ao preço de ontem na Bolsa. Os papéis ON terminaram ontem a R$ 30,25 (alta de 1,92%), e os PN, a R$ 26,80 (3,16%).
Neste ano, as ações caíram cerca de 20%. O preço na oferta é fixado com base na demanda dos grandes investidores, que pedem um “desconto” para não comprar os papéis na Bolsa. Também surpreendeu a entrada de pequenos investidores do varejo, incluindo os que puderam utilizar recursos do FGTS (só podia quem entrou em 2000).

