Diante de constantes revisões da recomendação para Cielo (CIEL3) e Redecard (RDCD3), as ações dispararam nos últimos sete dias. De acordo com a cotação de fechamento da terça-feira (22/02), os ativos negociados em Bolsa das duas empresas registraram no período alta de 14,26% e 18,07%, enquanto o Ibovespa acumula modestos ganhos de 0,15%. “Alteramos nossa recomendação de manutenção para compra sem alterar nosso ponto de vista sobre a empresa”, afirmou Aloísio Lemos, analista da Ágora Corretora. Muito penalizadas desde a introdução de novo ambiente competitivo em julho do ano passado, as ações começaram a chamar atenção dos analistas devido ao preço que era praticado pelo mercado.
Além disso, argumenta Lemos, após a divulgação do resultado de dois trimestres já com a captação multibandeira, o mercado consegue olhar para a frente com mais segurança e mais capacidade para projetar o próximo ano. Não à toa, várias casas de investimento revisaram a recomendação para os papéis. Além da Ágora, a Fator e o BTG Pactual passaram a sugerir compra das ações tanto da Cielo quanto da Redecard, enquanto o Morgan Stanley reviu sua posição e recomendou manuteção dos papéis, ao invés da venda.
Embora o cenário não tenha sido substancialmente alterado, a leitura é de que o próprio mercado exagerou. Daniel Malheiros, analista da Spinelli, lembra que o fluxo de notícias para as duas empresas estava muito negativo, com constantes deteriorações das projeções por bancos e anúncio da entrada de novos concorrentes no mercado, como a Credicard. “Houve exagero na reprecificação dessas companhias. Por mais que o resultado do quarto trimestre tenha sido negativo, as empresas mostraram que estão atentas a custos e que grande parte das negociações com grandes varejistas já foi feita”, afirmou Malheiros. O próprio presidente da Cielo, Rômulo Dias, fez questão de frisar que se as ações subiram, a queda havia sido forte.
“Temos que avaliar esses movimentos como reação do mercado”, afirmou Dias, que lembrou que mesmo com a pressão sobre a MDR, taxa cobrada dos estabelecimentos comerciais por cada operação realizada, a empresa registrou crescimento do lucro nos dois últimos trimestres de 2010.
A MDR (Merchant Discount Rate), por exemplo, pode ainda cair, mas a estabilidade deve vir antes do que se imaginava, acredita Malheiros. Eduardo Nishio e Eduardo Rosman, do BTG Pactual, também avaliam que o risco de uma disputa de preços mais prolongada diminuiu, o que também fez decrescer a possibilidade de que o resultado do primeiro trimestre de 2010 seja mais fraco do que o esperado.
De acordo com os analistas, Dias comentou em conferência organizada pelo banco que o ambiente de competição já foi mais ameno nos dois primeiros meses desse ano. Reforçou ainda essa expectativa, segundo Daniel Abut, do Citi, a troca de comando na Redecard. Roberto Medeiros deverá deixar o cargo em 60 dias, após um período de transição para que Cláudio Yamaguti assuma a presidência da empresa.
Ainda que julgue ser cedo para esse tipo de conclusão, o mercado leu o anúncio como possibilidade de que a agressiva política de preços da Redecard chegue ao fim, o que vai de encontra à expectativa de Abut, que prevê estabilidade da MDR no segundo semestre deste ano.
Mesmo o ingresso de novos concorrentes no segmento passou a ser avaliado como menos maléfico para as operadoras de cartões já em atividade. Lemos, da Ágora, estima que os ingressantes não devem alcançar mais do que 15% de participação de mercado nos próximos três anos, o que virtualmente deverá consolidar um quase duopólio no setor. Além disso, as receitas não devem registrar queda mesmo que o market share recue, já que o segmento de cartões de crédito e débito cresce cerca de 20% ao ano, com o aumento do uso desses meios como formas de pagamento.