Nos dois primeiros anos da loja virtual Brinquedos Laura, que “abriu as portas” em 2005, 5% do faturamento ia para as mãos de fraudadores. Sem sistema de segurança, o comércio de produtos eletrônicos e infantis era alvo de “charge back” (estorno), em que o pagamento é cancelado por vítimas de clonagem de cartão de crédito ou por pessoas que negam a compra.
Eletrônicos e eletrodomésticos são os artigos mais visados por fraudadores, mostra sondagem feita de janeiro a outubro deste ano com 16 mil portais brasileiros pela FControl, empresa de gerenciamento de risco do Grupo Buscapé, a pedido da Folha. Lojas virtuais que vendem eletroeletrônicos tiveram 38% das transações comprometidas no período analisado. As de turismo tiveram 21%; as de moda e acessórios, 10%.
O alto poder de revenda dos artigos justifica o ranking, segundo Marcos Cavagnoli, vice-presidente da divisão de serviços e finanças do Grupo Buscapé. Eletrodomésticos, roupas e passagens aéreas “são facilmente vendidos ou usados pelo fraudador”. “O risco de oferecer pagamento por cartão de crédito é alto, mas 80% das compras são feitas desta forma, e os lojistas não querem perder mercado”, explica Cavagnoli.
Expostas a fraudes, micro e pequenas lojas virtuais perdem 4% do faturamento ao ano, estima Ricardo Dortas, coordenador do Comitê de Meios de Pagamento da Câmara-e.net (Câmara Brasileira de Comércio Eletrônico). “Fraudes ocorriam mais em loja física, mas, com a inserção de chips em cartões, o crime aumentou na web.”
Com três unidades em São Paulo, o que atraiu a Brinquedos Laura a vender pela internet foi o panorama de expansão. A dificuldade em banir as fraudes, no entanto, atrasou os planos. Havia transações suspeitas de cerca de R$ 2 mil, diz Júnior Ribeiro, 33, gerente de “e-commerce”. “Descobri [as fraudes] porque os itens eram diferentes e caros”, conta.
Para chegar a perdas inferiores a 1%, a marca lançou, há um mês, novo portal e serviço de vendas pelo telefone. Também contratou empresa de segurança para analisar compras acima de R$ 149. “Reformulamos a estrutura para acabar com as fraudes.”
Ao tentar reduzir os prejuízos por fraudes, estimados em 4% do faturamento por ano, o empresário Márcio Albino, 38, diretor do portal A Mercantil, perdeu dinheiro. Com receio de ser alvo de golpes como clonagem de cartão de crédito ou bloqueio de pagamento, Albino cancelou compras “aparentemente fraudulentas, mas verdadeiras”, como as de um mesmo produto em tamanhos diferentes, nos primeiros meses de existência da empresa, lançada há cinco anos.
O excesso de cautela resultou na perda de clientes com alto potencial de fidelização. “A gente ligava para comprovar a compra e a maioria deles [clientes] reclamava do questionamento e da lentidão no envio do pedido”, diz.
A estratégia para conseguir resgatar consumidores foi contratar um serviço de análise de riscos, só pedidos considerados suspeitos pela terceirizada são avaliados pelo setor financeiro da loja.
A maneira como os empresários verificam a autenticidade das compras delimita o sucesso de um comércio virtual, avalia Ricardo Castro, professor de gestão em tecnologia da informação da faculdade Veris IBTA. “A grande dificuldade é encontrar o meio-termo entre a análise criteriosa do pedido e a correria para entregá-lo no prazo”, frisa.
Antes de cancelar a compra ou questionar sua veracidade, o empreendedor deve conferir se os dados cadastrais do cliente batem com os da encomenda e analisar a lista de produtos adquiridos, recomenda Pedro Chiamulera, sócio da ClearSale, empresa de gestão de riscos. “A perda é inerente a qualquer negócio, mas é a forma como o empresário lida com essa realidade que faz a diferença”, analisa o executivo.