Depois de dois meses com poucos resultados concretos, a CPI mista (Comissão Parlamentar Mista de Inquérito) do bicheiro Carlinhos Cachoeira não funcionará nesta semana, com expectativa de uma nova reunião apenas em 26 de junho, uma paralisação de 12 dias. A pausa, também por conta da conferência ambiental Rio+20, que atrairá vários parlamentares, dará tempo à área técnica da comissão para analisar documentos, na busca por informações ainda não obtidas pela Polícia Federal.
Os depoimentos dos governadores de Goiás, Marconi Perillo (PSDB), e do Distrito Federal, Agnelo Queiroz (PT), geraram uma atenção inédita à CPI. Mas, segundo o relator, deputado Odair Cunha (PT-MG), o problema não está em convocações, mas sim na obtenção de dados de sigilos fiscal, bancário e telefônico de pessoas e empresas relacionadas ao contraventor.
De acordo com ele, apenas 10% dos documentos solicitados até o momento já chegaram à comissão. “Nem o bruto das gravações da PF chegou até agora. Estamos insistindo com as devidas instâncias para avançarmos na nossa investigação”, disse ele, que se diz “preocupado” com a demora.
A CPI deseja obter dados da PF, do STF (Supremo Tribunal Federal), do STJ (Superior Tribunal de Justiça), do Banco Central e de outras fontes que, até agora, não atenderam. “Quero acreditar que isso esteja acontecendo por questões burocráticas”, disse o relator. “Este não é o momento de ouvir mais pessoas, é a hora de nos atentarmos para os dados ainda não cruzados e interpretados.”
A falta dessas informações fez Cunha sugerir uma medida polêmica: não convocar dois personagens do escândalo: os ex-dirigentes do Dnit (Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes) Luiz Antonio Pagot e da construtora Delta, Fernando Cavendish. Ambos podem ter se envolvido em casos de corrupção por conta da empreiteira que, segundo a PF, tem Cachoeira como sócio oculto.
O clima promete esquentar mesmo sem sessões ao longo da semana por conta da revelação de que dois parlamentares da CPI almoçaram com Cavendish em Paris no último mês de abril, quando o escândalo já borbulhava. O senador Ciro Nogueira (PP-PI) e o deputado Maurício Quintella Lessa (PR-AL) já admitiram o encontro, mas afirmaram que se tratou de algo “fortuito e ocasional”.
Quando a CPI retomar suas reuniões, deverá ouvir pessoas ligadas a Perillo e Agnelo. O tucano vendeu sua residência em uma operação intrincada, que leva a PF a suspeitar que ele tivesse relações com Cachoeira, que, por sua vez, teria indicado membros de sua gestão. Já o governo do petista teria membros interessados em se aproximar da quadrilha e um contrato de coleta de lixo renovado de forma polêmica.
Outro tema que preocupará os membros da CPI ao longo da semana é o risco de que a Justiça anule as provas obtidas contra Cachoeira e sua quadrilha pela operação Monte Carlo. Na semana passada, o desembargador Tourinho Neto, do TRF (Tribunal Regional Federal) da 1ª Região, votou pela anulação das escutas e pela liberdade do contraventor.
Na última sexta-feira (16/06), Tourinho Neto determinou a imediata soltura de Cachoeira, que está detido no Presídio da Papuda, em Brasília desde abril. A determinação da Justiça, no entanto, não significa que o bicheiro será solto, já que existe outro decreto de prisão na 5ª Vara do Tribunal de Justiça do Distrito Federal, que não foi derrubado, portanto, o bicheiro permanece preso.
A decisão sobre Cachoeira foi uma extensão do pedido feito pela defesa de José Olímpio de Queiroga Neto, conhecido como Careca, acusado de ser um dos assessores de Cachoeira. Ele foi libertado na última quarta-feira, e a defesa de Cachoeira pediu, então, que o benefício também fosse aplicado ao empresário.
Em sua decisão, o juiz afirma que o cenário de quando a prisão preventiva foi decretada mudou: “A poeira assentou. A excepcionalidade da prisão preventiva já pode ser afastada”.