De 2002 até janeiro deste ano, a participação masculina no mercado de ações diminuiu de 82,37% do total das contas de pessoa física para 75,22%, cedendo território às mulheres, cujas contas cresceram de 17,63% para 24,78% nesses oito anos, segundo dados da controladora da Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa), a BM&FBovespa. Esse cálculo também considera as contas criadas pelo mesmo investidor em mais de uma corretora. De um total de 603.512 contas existentes, 149.536 pertencem a mulheres.
Segundo a analista gráfica de ações Adriana Feijó, que mantém o site “Mulheres de Valor”, programas de popularização da bolsa de valores, como o “Mulheres em Ação”, promovido pela BM&FBovespa, vêm ajudando a atrair o público feminino para o mercado de renda variável. No entanto, Adriana crê que a bolsa ainda é apresentada às mulheres como instrumento de investimento de longo prazo, deixando de incentivá-las a investir também a curto prazo. “As investidoras têm como objetivo criar uma poupança de longo prazo, porque ainda é muito intimidante, para a mulher, a ideia de usar a rentabilidade com ações como uma forma de complementar renda”, diz a analista.
Para o sócio-economista da Legan Asset Fausto Gouveia, o perfil da investidora é, por enquanto, menos intuitivo que o do investidor, por motivos culturais. “O mercado de ações já faz parte da conversa no fim do dia do homem, do happy hour depois do expediente”, diz. Assim, há mais oportunidade para treinar, comprar e vender papéis de grande liquidez, como OGX, uma das preferidas dos investidores mais jovens, segundo Gouveia.
Já as mulheres começam a investir em ações tradicionais, como as da Petrobras e da Vale, por causa da facilidade de acessar o histórico de rendimento desses papéis, de acordo com o economista da Legan. Na carteira de investimentos das mulheres, o risco e a liquidez de curto prazo dão lugar a análises técnicas de balanços das empresas e planejamento para garantir independência financeira.
Comunidades e sites como o de Adriana orientam e tiram dúvidas em relação ao mercado de ações. O “Mulheres de Valor” realiza toda quinta-feira um chat online de 30 minutos para comentar o desempenho das ações e tirar dúvidas de investimento. Homens também participam dos debates. “Muitas mulheres tinham medo de passar vexame por falta de informação. Agora, elas conseguem dados e conhecimento sem ter que perguntar a seus maridos, e até chamam os parceiros para entrar no clube”, diz Doraci Julia, assistente de investimentos da Prosper Corretora, que administra o clube de investimento misto “Mulher & Negócios”.
Os clubes funcionam como os fundos de investimento, mas em menor escala e de maneira mais informal. O mínimo de participantes é de três investidores, e o máximo, de 150. Existem também clubes fechados para mulheres, como “Mulherinvest”, “Mulheres em Ação” e “Mulheres Prósperas”.
A representante do “Mulher & Negócios”, criado no começo de 2010, é uma mulher. Hoje, o clube conta com 35 investidores, entre homens e mulheres, e patrimônio de R$ 600 mil. A ação da Petrobras é a que concentra mais investimentos na carteira, mas o clube também investe em outros sete setores, como siderurgia, telecomunicações, bancário e de energia, segundo Doraci.
A investidora Camille Schuch Vedolin é uma das 35.768 investidoras com idades entre 26 a 35 anos, faixa etária do público feminino que mais aplica na bolsa, segundo dados da Bovespa. Ela deixou para trás a formação de farmacêutica para atuar na bolsa por conta própria. Seu irmão chamou sua atenção para o mercado em 2005, mas cuidar dos filhos e trabalhar como sócia de uma farmácia de manipulação não deixavam tempo para se dedicar à bolsa em tempo integral.
“A dedicação à bolsa é igual a qualquer trabalho que envolva trocas de mercadorias e serviços. A diferença é que pode ser realizada sem patrão, sem equipe, em qualquer lugar do globo”, diz Camille, que voltou a estudar o mercado em 2010 e largou a sociedade.