Menos de 1% das empresas brasileiras tem ações negociadas na Bolsa

O aumento no número de pequenas e médias empresas no país reflete os avanços de uma economia favorável, mas também deflagra falhas sistemáticas na profissionalização do país. Prova disso é que, do total das 160 mil empresas brasileiras, que acumulam a receita líquida de US$ 1,3 trilhão, menos de 400 delas têm ações negociadas na Bolsa, segundo relatório divulgado pela Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). Constituindo a esmagadora maioria, as empresas de capital fechado geralmente são familiares, com poucos sócios e apresentam diferentes perfis, atendendo equilibradamente aos setores industrial, de serviços e comercial.

Segundo especialistas, a profissionalização e crescimento dessas empresas poderia garantir a autossuficiência do país em diversas frentes e uma das soluções apontada para esse impasse é o investimento em governança corporativa. Trata-se de um sistema de práticas que garantem a confiabilidade de uma empresa frente a acionistas. De acordo com Antonieta Rossi, psicóloga organizacional, a implementação de governança corporativa, principalmente em empresas familiares, é fundamental para garantir a perenidade dos negócios em crescimento. Prova disso é que, segundo a pesquisa Delloite de 2008, entre as cem pequenas e médias empresas que mais cresceram no Brasil, 87% adotam ou pretendem adotar a governança corporativa. Essas empresas tiveram crescimento médio de 42% ao ano em um prazo de cinco anos.

De acordo com Paulo Carvalhinha, membro do Instituto Brasileiro de Governança Corporativa (IBGC), é importante investir na maior produtividade das pequenas e médias empresas para diversificar a economia e aproveitar o maior número de pessoas qualificadas no país. “O Brasil nunca será democrático se não tiver capital democratizado. E, para isso, é preciso investir em transparência e favorecer o crescimento desses diferentes negócios”, explica. Segundo Carvalhinha, o Brasil vive um período de mudança substancial ao mesmo tempo em que a globalização aumenta a complexidade dos negócios e amplia a concorrência para escala mundial. “As empresas brasileiras têm potencial de competir em uma nova realidade, com novos campos, estratégias e talentos”, enfatiza.

Segundo informações divulgadas pelo Internacional Corporate Governance Network, ICGN, 71% dos empresários acreditam que o Brasil tem, entre os BRICS (grupo de países em desenvolvimento que inclui Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul), o melhor ambiente de governança corporativa para receber investimentos. Além do cenário favorável, os números também apontam potencial enorme de crescimento brasileiro: segundo a OCDE, a população de estudantes universitários cresce 9% ao ano no país, enquanto o crescimento da população é de 1,2% ao ano. O aumento da mão de obra qualificada também deve ser associado ao crescimento econômico atual: o período de transição demográfica, que prevê o aumento da população economicamente ativa, pode resultar, segundo a OCDE, em um bônus demográfico que permite que a renda per capita do brasileiro cresça 2,5% ao ano entre 2010 e 2050.

Diante desse cenário, o Conselheiro de Administração e membro do Capítulo MG do IBGC, Enio Coradi, acredita que o investimento em governança corporativa é fator preponderante para o crescimento econômico. “No Brasil temos instituições que funcionam relativamente bem, imprensa livre, cultura popular enraizada aversa à inflação, poupança interna com enorme potencial de crescimento e fluxo de entrada de recursos crescente. Mas faltam condições mais favoráveis para avançar no mercado de bolsa de valores, que naturalmente demanda por transparência e prestação de contas, dentre outras exigências. Acredito que a governança corporativa seja um importante indutor nesse quesito”, afirma.

A governança corporativa está relacionada à gestão de uma organização, a relação com os acionistas (shareholders) e as demais partes interessadas (stakeholders): clientes, funcionários,fornecedores,etc.