Para que a economia brasileira passe a crescer de maneira sustentada, o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) defende ser necessário que o governo volte a investir pesadamente. O coordenador do grupo de análise e previsões do instituto, Roberto Messenberg, acredita que o consumo interno não terá capacidade de sustentar o crescimento por muito tempo.
Ele disse que a economia brasileira não está preparada para entrar em trajetória de crescimento sustentado, em que o investimento dá a sustentação necessária. “O problema da estrutura produtiva brasileira é a preocupação excessiva com a instabilidade de preços. Conseguimos a estabilidade, mas ela não foi indolor”, disse, na apresentação na Carta de Conjuntura de junho.
A revisão das previsões realizadas em maio para o fechamento do ano manteve a expectativa de que a inflação deverá ficar dentro da meta estabelecida pelo governo, com o índice nacional de preços ao consumidor amplo (IPCA) devendo ficar entre 4% e 5%. A expectativa continua sendo de que o crescimento da economia fique em torno dos 5,5% a 6,5% no ano de 2010. Um crescimento mais elevado seria impossibilitado por um problema estrutural criado a partir da preocupação com a estabilidade de preços.
“O Plano Real não teve só coisas boas. Teve um custo medonho. Tinha-se a ideia de que qualquer coisa era válida para controlar a inflação, mas isso teve um custo muito alto e esse custo está aí até hoje”, disse Messenberg. Para que a economia cresça, na opinião do pesquisador, não basta mais que o investimento fique em torno de três vezes o avanço do PIB. Ou seja, o patamar de 18% a 19% do PIB para a formação bruta de capital fixo é considerado baixo, precisando chegar a algo em torno de 23%. O que só seria possível, na opinião do Ipea, com o aumento de investimentos do setor público.
Na opinião do coordenador de análises e previsões do instituto, o governo precisa realizar investimentos diretamente na economia, em setores como educação, infraestrutura, saúde e segurança. “A gente precisa fundamentalmente da ampliação dos investimentos públicos e da radicalização desse processo”, disse.
No entanto, a única saída não seria o investimento público direto na economia, mas também a utilização do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) como forma de dar o indicativo do governo sobre os investimentos, mas mantendo também a participação privada. Os estudos do Ipea mostram que, se não fosse a atuação do banco de fomento no ano passado, durante a crise internacional, a economia brasileira poderia ter apresentado retração em torno de 3% a 4% no ano.
A ampliação da atuação do governo não deveria preocupar, no entanto, em relação à situação fiscal. Messenberg disse que a situação fiscal hoje pode ser criticada, mas este não é o maior empecilho do país. “Não acredito em bomba fiscal. Isso é uma maneira de olhar para a economia com os olhos da equipe econômica do Pedro Malan”, disse o pesquisador do Ipea. Ele acredita ainda ser necessário atrair mais investimentos externos que não sejam baseados em portfólios financeiros. “O investimento externo direto está secando”, disse.
O Ipea considera ainda que a Balança Comercial do país está frágil, devido à grande importação de bens duráveis. Devido às importações, parte da indústria nacional acaba não vendendo tanto quanto poderia. Além disso, com a falta de mecanismos de longo prazo interno e a consequente dependência de dinheiro estrangeiro, a indústria nacional acaba ficando refém da oscilação cambial, já que sua receita é em moeda local.

