Uma das principais compradoras de itens brasileiros, a China é também para muitos o algoz da indústria nacional. De janeiro a novembro de 2011, o comércio no varejo de calçados, que concorre com a China, apresentou crescimento de 7%, de acordo com a Associação Brasileira das Indústrias de Calçados (Abicalçados). Com um déficit de 27,8% no setor, os grandes beneficiários do crescimento foram os asiáticos.
Enquanto o setor pleiteia junto ao governo medidas como a desvalorização do real e a adoção de barreiras alfandegárias, pequenos empresários podem tomar medidas eles próprios para protegerem seus negócios. Das 8 mil fábricas de calçados brasileiras, 73% são microempresas. “A China coloca produtos baratos no mercado, mas hoje é também o nosso maior parceiro comercial. Não podemos ir contra eles frontalmente”, afirma o professor de economia da Fundação Getúlio Vargas (FGV), Evaldo Alves.
Embora as vendas do setor têxtil no País tenham crescido 6,68% em 2011, a Associação Brasileira da Indústria Têxtil (Abit) aponta uma queda de 11,9% na produção do segmento e de 0,3% na produção da indústria de vestuário e confecção nos primeiros cinco meses do ano passado, na comparação com 2010. Isso se explica pelo avanço dos produtos importados, que geraram um crescimento do déficit na balança comercial do setor, que aumentou 43,2%, somando US$ 2,26 bilhões.
Marcas brasileiras têm recorrido cada vez mais a importados. A grife Handbook Fashion, por exemplo, cresce apostando exatamente na importação de vestuário de outros países, entre eles a China. Com 20 anos no mercado, a marca chegou ao número de 27 lojas este ano. “Se produzíssemos 100% do que vendemos nacionalmente, teríamos que cobrar cinco vezes mais mesmo contando com a política protecionista de importação brasileira”, diz Felix Mifune, diretor de marketing da empresa.
Entre os freios à competitividade brasileira frente à China estão velhos conhecidos dos empresários brasileiros. Uma infraestrutura deficiente aliada ao complicado sistema burocrático são alguns deles.A isso se aliam a baixa qualificação da mão-de-obra aliada aos salários altos em comparação com a China, e a relativamente recente valorização do real tornam os produtos brasileiros menos competitivos no mercado internacional.
O trabalhador chinês tem um sistema de seguridade social. “Por ser um país de origem socialista, os salários são mais baixos porque o governo tem um sistema previdenciário maior”, resume Evaldo, da FGV.
Enquanto investimentos de longo prazo em educação e infraestrutura não alcançam o ideal ou surtem efeito, o pequeno industrial brasileiro pode fazer a lição de casa em sua própria fábrica.
Evaldo destaca que o Brasil conta com linhas de crédito atraentes oferecidas pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). “Um empresário pode obter até R$ 7 milhões através de linhas do BNDES no próprio banco com o qual trabalha”, diz. Além disso, fracionar a produção junto a outras empresas, e associar-se a empresários em busca de sinergia também são opções válidas.
Outro desafio é buscar se diferenciar para conquistar um nicho. Os produtos chineses são voltados para o grande público, o que dá abertura para quem se especializa e cria produtos diferenciados. “Precisamos de uma estratégia mais clara para os nossos produtos, nos perguntando quem é nosso público, quanto pode e onde ele quer gastar”, diz Evaldo.

