A mudança nas regras de remuneração da poupança adotada pelo governo ontem (03/05) abre uma porta para o Banco Central cortar ainda mais a taxa básica de juro no Brasil. O que está em questão agora é se ele vai optar ou não por este caminho. A média da projeção do mercado é que a Selic chegue a 8% ao ano até o final de 2012, segundo estimativas de seis corretoras e bancos, compiladas pelo Portal InfoMoney.
Para os analistas, a mudança era necessária porque, com a Selic em níveis muito baixos, a poupança ofereceria uma rentabilidade maior do que os títulos públicos e outros ativos de renda fixa. Além disso, a alteração na rentabilidade da caderneta, que atualmente paga TR (Taxa Referencial) mais 0,5% ao mês, era preciso para que o governo consiga seguir reduzindo a taxa de juro no País. “Isso tira da frente do Banco Central o obstáculo para continuar reduzindo ainda mais a Selic”, apontou o economista-chefe da SulAmérica, Newton Rosa. Segundo ele, a presidente do Brasil, Dilma Rousseff, está disposta a enfrentar uma briga política considerável em sua determinação de buscar uma taxa de juros compatível com os patamares internacionais. Com o governo disposto a enfrentar esse ruído, não faz sentido que o BC restrinja a queda da Selic em apenas 0,5 ponto percentual.
Os analistas Marcelo Kfoury, Leonardo Porto e Marcela Prada, do Citigroup, também acredita em cortes mais profuntos. Eles apontam mais duas reduções de 0,5 p.p em maio e julho e mais uma redução adicional de 0,25 p.p em agosto.
No mesmo sentido, a equipe de analistas do JPMorgan Chase acredita que a mudança do governo é favorável e bem-vinda. Entretanto, eles alertam que não deve ser o principal driver para as decisões de política monetária. “Nós consideramos que o baixo crescimento econômico, juntamente com o declínio da taxa de inflação, devem guiar as condutas políticas, e a mudança nas regras de remuneração da poupança é necessária para testar patamares mais baixos da Selic”, ressaltaram os analistas.
As novas mudanças do governo, anunciadas pelo ministro da Fazenda, Guido Mantega, irão valer para as cadernetas abertas a partir de amanhã ou para os depósitos em carteiras antigas também realizados na próxima data. Como a Selic está a 9% ao ano, a remuneração segue sendo a antiga para todas as cadernetas. De acordo com o novo modelo, a remuneração da poupança será alterada sempre que a Selic estiver abaixo ou igual a 8,5% a.a.. Nessas condições, a poupança será remunerada pela TR mais 70% da Selic.
Por sua vez, tanto os analistas do JPMorgan quanto o economista-chefe da Febraban (Federação Brasileira de Banco), Rubens Sardenberg, apontam que a taxa básica de juro deve retomar o patamar de 10% a.a. no próximo ano. Para Sardenberg, “a expectativa de alta da Selic reflete um crescimento mais forte da economia, que pode avançar até mais do que a nossa projeção de 4,2% para o próximo ano”.
O economista-chefe da SulAmérica, contudo, alerta para o momento em que a Selic entrar em trajetória ascendente: “Enquanto a taxa de juro estiver caindo, tudo bem, mas em algum momento ela terá que subir. Se for para 10% ou 12%, poderá gerar um problema sério no lado dos financiamentos imobiliários”.

