2011 começou repleto de perspectivas otimistas em relação ao número de novas ofertas de ações que seriam registradas na BM&F Bovespa até o final do ano. Além do estímulo da própria bolsa, analistas apontam que o bom momento para os IPOs decorre também da crescente necessidade das empresas em se capitalizar, surfando a onda de crescimento da economia brasileira e o bom posicionamento do País em relação aos mercados externos.
Mas, ao que tudo indica esse cenário positivo pode vir a sofrer alguma mudança ao longo do caminho. Isso porque, apesar do registro de 13 ofertas na CVM (Comissão de Valores Mobiliários) desde o início do ano, o mercado tem se deparado com precificações abaixo do esperado ou ainda alguns cancelamentos ou postergações, como foi o caso da CAB Ambiental e da International Meal Company.
“O ano começou muito forte, nós devemos ter entre seis e sete IPOs apenas nos dois primeiros meses do ano, o que em termos de quantidade de operações é bastante expressivo”, destacou o sócio da Ernst & Young Terco para a área de ofertas de ações, Paulo Sérgio Dortas. “Só que, o que nem as guerras tinham conseguido parar, que é este ímpeto da abertura de capital, o desastre no Japão realmente deu uma esfriada no último mês deste primeiro trimestre”, completou.
De acordo com Dortas, o desastre no Japão ocorrido há pouco mais de um mês trouxe um clima de cautela aos investidores, especialmente no front internacional, ocasionando uma menor procura pelos IPOs realizados aqui. O executivo lembra que os maiores compradores de ofertas de ações brasileiras são os grandes fundos estrangeiros, que antigamente representavam 75% dos investidores de IPOs e hoje são apenas 55%.
Para ele, independentemente se os desastres no Japão trarão ou não consequências ao Brasil, os investidores estão muito mais sensíveis a este tipo de impacto na economia global. “Se a gente pudesse fazer IPOs só com comprador local, provavelmente o ânimo do comprador destas ofertas estaria muito melhor do que aquele do investidor internacional, que já vinha de um cenário de fuga de risco”, afirmou Dortas.
A exemplo do IPO da Sonae Sierra (SSBR3) e da Queiroz Galvão (QGEP3), quase todas as ofertas de ações registradas na CVM este ano foram precificadas aquém do esperado pelos respectivos coordenadores. Na análise de Dortas, isso já está ligado à percepção do investidor sobre o risco potencial de a empresa entregar o que está prometido na oferta de ações. “Nós tivemos casos que foram muito claros recentemente, a entrada na bolsa da HRT Participações em Petróleo (HRTP3), que veio surfando a onda do pré-sal, assim como a Arezzo (ARZZ3), que veio no embalo do consumo, e ambas conseguiram estar no range de preço a que foi estabelecido”, destacou o sócio da Ernst & Young.
Dortas explica que nestes dois casos estamos falando de empresas novas e claramente atreladas de um lado a setores da economia que representam uma promessa muito grande de entrega de crescimento, e por outro lado a administradores reconhecidos pelo mercado por sua competência. “Nos outros IPOs, alguns que estão sendo realizados em mercados onde já houve outras ofertas, o que aconteceu foi que a percepção dos agentes econômicos, dos agentes compradores de IPOs, é de que o risco embutido na capacidade de entregar estava muito maior do que o desconto tradicional de IPOs, aqueles 25%, às vezes até 30% do valuation. Então, eles (os investidores) impuseram descontos maiores”, disse.
Para Luiz Morato, trader da TOV Corretora, esta é uma questão bastante importante também para explicar a enfraquecida dos IPOs no mercado brasileiro no último mês. Segundo ele, os investidores ficaram mais exigentes e estão cobrando que as empresas apresentem múltiplos menores, mais atrativos, para que eles possam ter mais segurança na hora de entrar em uma nova oferta de ações na bolsa.

