Brasil se despede de Obama sem garantir reforma na ONU e ofuscado pela Líbia

O governo brasileiro esperava holofotes de todo o mundo durante a primeira visita à América do Sul do presidente dos Estados Unidos, Barack Obama. Esperava que o americano apontasse o país como futuro membro do Conselho de Segurança das Nações Unidas. Esperava anunciar o fim dos longos processos de visto para entrada na nação mais poderosa do planeta. Acabou ficando com afagos genéricos, acordos modestos e todo o Ocidente bem mais interessado na intervenção na Líbia, deflagrada nesse sábado (19/03).

Quando Obama decolar nesta segunda-feira (21/03) da Base Aérea do Galeão, no Rio de Janeiro, o foco de suas preocupações será o mesmo de sexta-feira (18/03), dia em que deixou Washington com a mulher, Michelle, as filhas, Sasha e Malia, e uma comitiva de mais de mil pessoas, rumo a Brasil, Chile e El Salvador: como impedir o ditador Muammar Gaddafi de continuar com o massacre de civis sem que isso pareça uma ação unilateral do país que nos últimos anos conduziu com ajuda de poucos as polêmicas guerras no Iraque e no Afeganistão.

Esse foi um dos temas de sua primeira agenda pública no país, poucas horas depois de aterrissar em Brasília. Embora os dez acordos assinados com o Brasil também estivessem na pauta da conversa com a presidente Dilma Rousseff, no Palácio do Planalto, Obama usou grande parte de seu tempo para falar sobre a ação na Líbia, que seria desencadeada pouco depois. Do local onde conversava com a colega brasileira, deu seu ok ao início das operações. Voltou a falar sobre o assunto várias vezes ao longo de sua passagem.

Alguns dos principais veículos da mídia americana notaram desconforto em Obama por estar fora dos EUA ao anunciar a primeira intervenção de seu governo no exterior; ele aumentou o contingente de soldados no Afeganistão, mas a iniciativa já estava prevista pela gestão do antecessor, George W.Bush. Adversários do Partido Republicano já criticam o presidente por ter vindo à América Latina, permitindo que a França tomasse a liderança nos ataques à ditadura líbia, embora os americanos controlem a maioria das operações.

No Palácio do Planalto, apesar de expectativas frustradas, havia otimismo pelo sinal: o homem mais poderoso do mundo visitou Dilma antes mesmo de ela ir a Washington e em seu primeiro semestre no cargo. No mês que vem ela irá à China, país que os EUA já tratam como principal rival geopolítico. Aos EUA, ela só deve viajar em setembro, mês em que também abrirá a Assembléia-Geral da ONU, em Nova York, no dia 14. Até lá, espera-se um acordo sobre a extensão dos vistos, ou até o fim deles. Além de queda de tarifas.

Sobre a entrada no Conselho de Segurança, composto por EUA, Rússia, China, Grã-Bretanha e França, a manifestação de “apreço” pela entrada do Brasil no clube foi vista pelo Itamaraty como “um bom primeiro sinal”, nas palavras de um diplomata. Embora insuficiente, disse ele, foi melhor do que o esperado, já que o Departamento de Estado americano não desejava sequer essa menção. A secretária, Hillary Clinton, mantém nos bastidores uma disputa com Obama pelos rumos da política externa.

“Essa visita é importante não pelos acordos, mas sim pelos sinais”, disse Luciano Dias, do IBEP (Instituto Brasileiro de Estudos Políticos). “É verdade que o conflito na Líbia é o foco do Ocidente hoje e que a vinda do Obama não se compara à de outros momentos, como a do presidente Franklin Delano Roosevelt em 1943, durante a 2ª Guerra Mundial. Mas é a primeira visita de um presidente americano com o Brasil em posição de destaque no cenário internacional com base na economia e nas políticas sociais.”