Quem se aventurava a passar pela estrada RJ-130 e via seu Assis ajudando no resgate da localidade de Campo do Coelho, na zona rural de Nova Friburgo (RJ), podia confundi-lo com um voluntário. De calças dobradas e pés descalços na lama, ele estava, no entanto, desenterrando da mistura pesada de terra, pedra e madeira seu terceiro familiar: a neta Jenice, de 14 anos.
Com a ajuda de dois de seus filhos, Assis Mariano Fagundes ainda procura o terceiro deles. “Ele se chama Assis, como eu, e era o mais parecido comigo. Só Deus para explicar de onde tiro forças para buscá-lo”, desabafou depois de, com ajuda de militares e voluntários, atravessar um córrego com a maca que levava o corpo da neta.
Seu filho Gilberto resgatou os primeiros familiares ainda na madrugada calamitosa da última quarta-feira. “Eu cheguei perto do córrego e vi um pedaço de colchão limpinho. Cavei a terra com a unha, pensando que podia tirá-los vivo. Encontrei minha cunhada abraçada com meu sobrinho. Ela tinha o celular na mão”, relatou Gilberto. “Depois, só gritei e chorei”.
No dia seguinte, os vizinhos emprestaram enxadas e pás para facilitar o trabalho. Os filhos derrubaram três pinheiros usando machados para que a escavadeira entrasse na propriedade, mas o maquinário não veio. A região ficou isolada até o último domingo, por conta dos diversos deslizamentos de terra e gigantescas pedras sobre o asfalto da estrada, que liga Nova Friburgo a Teresópolis. A família reclama que recebeu pouca ajuda das forças públicas para resgatar seus mortos. “Tem escavadeira e trator tirando terra da casa dos outros, e aqui eles não vem para eu achar meu filho”, queixou-se Assis.
A ajuda, porém, veio dos voluntários. Jadson dos Santos, 26, e Luiz Andrade Ferreira, 37, vieram da Ilha do Governador, no Rio, para ver como estava a família de Ferreira, que mora na serra. Ali, diante do caos que viram na cidade, juntaram-se a Carlos Andrade, 18, para ajudar. “Não dava para ficar de braços cruzados diante disso. Então começamos a procurar quem precisava de nós. E aqui é fácil, é só bater em qualquer porta, que tem alguém que precisa de ajuda”, disse Jadson. Ele contou que o trio estava passando pela rodovia quando viu seu Assis sozinho, cavando. Nem os bombeiros tinham chegado no local ainda. “Vimos o esforço dele e nos emocionamos. É muito gratificante poder ajudar”.
Para Luiz, a convicção que Assis tinha de que ia encontrar os corpos motivou a todos na hora do trabalho. “Ver a família ali trabalhando sem parar nem para beber água, na certeza de achar, dava força. A situação estava precária de ferramentas, cada um cavava um pouco. A gente brincava um pouco para amenizar o clima. Mas, pelo cheiro, sabíamos que os corpos estavam profundos na terra”, disse. Foi ele que achou o corpo de Jenice. “Vi um negócio verde, achei que era uma bola. Mas era a roupa da menina”, lembrou.
Campo do Coelho é um dos lugares mais atingidos pela devastação. Encostas inteiras desmoronaram levando, além de terra e pedras, trechos de mata inteiros até o nível mais baixo. Não sobrou nada pelo caminho, senão destruição. Os morros onde antes se via vegetação verde hoje ostentam o vermelho da terra, que espalhou o vermelho do sangue pelos vales.

