Sem água, luz e telefone, as equipes de resgate da tragédia em Nova Friburgo, na região serrana do Rio, estão trabalhando “na garra”, enfrentando uma situação de guerra, afirmou o comandante do Corpo de Bombeiros, coronel Mori. “É literalmente uma situação de guerra. O nosso maior problema é que estamos sem comunicação. A nossa missão principal hoje é resgatar o máximo de pessoas, de preferência com vida”, declarou o comandante ao estimar um número de mortos de cerca de 140. “Eu calculo hoje cerca de 140 mortos, mais do que Teresópolis. Isso com o que nós achamos, fora quando começarmos a procurar. As nossas viaturas não estão chegando a lugar nenhum”.
Um Instituto Médico Legal de campanha foi montado no centro da cidade e funciona provisoriamente num núcleo educacional. Até a noite de quarta-feira (12/01), a informação é de que havia 87 corpos no IML e, só nesta última madrugada, a expectativa era de que chegassem a um total de 200 corpos, segundo informaram funcionários que coordenavam a chegada dos carros de bombeiros que traziam os mortos. O IML de campanha está preparado para receber 400 corpos. “Na cidade há corpos em todo o lugar, e estão sendo distribuídos nos hospitais, em maternidade, na polícia, em tudo quanto é lugar”, afirmou uma funcionária do IML sem se identificar.
Segundo informou o comandante do Corpo de Bombeiros, cerca de 250 homens estão atuando em Friburgo. Do Rio de Janeiro, foram enviados cerca de cem bombeiros e apoios de viaturas. São no total 35 viaturas que não conseguem dar conta da demanda pelo volume de pedidos de resgates e pela dificuldade de acesso aos locais atingidos.
A chuva começou na terça-feira, às 16h00, e se intensificou às 22h00. A primeira construção a desabar foi um prédio de três andares, que caiu sobre casas e matou duas pessoas soterradas. Na madrugada de quarta-feira, o volume pluviométrico chegou a 310 milímetros, uma quantidade muito superior ao que choveu, por exemplo, em Angra dos Reis, na tragédia de janeiro de 2010. O local não recebeu naquela época nem cem milímetros de chuvas. “Sobrevoei a cidade e tem muitos pontos que o nosso pessoal não consegue chegar. O córrego Dantas, uma localidade aqui perto, já tem 35 pessoas feridas com fraturas expostas, inclusive, que não conseguem ser transportadas. Só lá já são 40 mortos. Há dezenas de pontos de deslizamentos, todos os bairros tem um ponto de deslizamento sem exceção. Foi uma calamidade, isso nunca aconteceu na cidade”, disse o coronel Mori.
Segundo afirmaram bombeiros que vieram do Rio de Janeiro para ajudar nos resgates, a situação de Friburgo é pior até mesmo da tragédia ocorrida em Angra, na madrugada do Réveillon de 2010, ou no Morro do Bumba, em Niterói, em abril. “Aqui foi uma proporção muito maior e pior. Aqui a cidade inteira caiu”, disse um dos socorristas que após um longo dia de trabalho estava sentado na caminhonete a tirar uns minutos de descanso antes de retomar as buscas. Segundo o Corpo de Bombeiro, ainda não há como avaliar número de desabrigados e o que atrapalha os salvamentos é a quantidade de locais inacessíveis.
A família de ex-prefeito Paulo Azevedo, de 72 anos, chegou desesperada na noite de quarta-feira ao quartel dos bombeiros. Muito abalada, a ex-primeira-dama Deusa Rodrigues, de 42 anos, disse que ela e sua família caminharam durante seis horas para pedir ajuda. O ex-prefeito ficou soterrado sob lama e escombros de sua casa na estrada do Santana, distrito de Campo do Coelho, em Friburgo. Segundo Deusa, a casa caiu devido às fortes chuvas. “Caiu tudo, desabou tudo, não vi nada mais. O resgate não chegou, estamos aqui, andamos eis horas a pé para pedir ajuda. Milagre acontece. Estou implorando para o comandante para conseguir arrumar uma ambulância. Ele está sob os escombros. Tem que ter fé”.

