Especialistas do setor financeiro descartam a possibilidade de aumento imediato do custo do crédito concedido pelos bancos por conta da elevação do compulsório sobre depósitos à vista e a prazo. De acordo com o próprio Banco Central (BC), as mudanças das regras de recolhimento dos compulsórios causarão um impacto de R$ 61 bilhões ao mercado.
“É preciso entender que não foi alterado o custo de captação para os bancos: o que mudou foi a quantidade que o banco poderá emprestar. Por conta disso, não creio que os bancos vão aumentar os juros na concessão de crédito até o início de 2011”, afirma Alex Agostini, economista-chefe da Austin Rating.
O especialista destaca ainda que no próximo dia 8 o “Comitê de Política Monetária (Copom) realizará sua 155ª reunião para decidir o futuro da taxa básica de juros (Selic) e será o último encontro sob a tutela do atual presidente, Henrique de Campos Meirelles, encerrando um ciclo de 76 reuniões”, diz Agostini. Em seguida o economista diz que “as medidas anunciadas pelo BC e pelo Conselho Monetário Nacional (CMN), em nosso entendimento, são o primeiro passo para o processo de aperto monetário que ocorrerá ao longo de 2011, e com foco na elevação da taxa Selic com maior concentração no primeiro semestre”, diz.
Agostini conclui dizendo que, “neste sentido, a Austin Rating reitera sua expectativa de manutenção da taxa Selic em 10,75% na reunião de dezembro e elevação da taxa em ao menos 0,50 ponto percentual na reunião que ocorrerá dia 19 de janeiro de 2011, a primeira sob o comando do novo presidente do Bacen: Alexandre Antônio Tombini”, esclarece. O professor Alcides Leite, da Trevisan Escola de Negócios, partilha da mesma opinião: acredita que a medida tomada pelo governo foi positiva. “O impacto não será imediato. Há concorrência entre os bancos, isso pode fortalecer a manutenção do juro cobrado pelo banco”, explica.
O spread bruto dos bancos deverá ser elevado como consequência dos efeitos das medidas macroprudenciais, afirmou o economista-chefe da Federação Brasileira de Bancos (Febraban). “Vai ocorrer elevação do spread bruto”, afirma Sardenberg. Entende-se por spread bruto a diferença entre o custo de captação e a despesa com juros, que são os dados que o BC divulga regularmente.
A preocupação externada pelo economista da Febraban reside, segundo ele, na visão errônea das pessoas que consideram aumento de spread bruto como se fosse aumento de lucro. “Mas, dentro do spread bruto, e essa é uma velha luta minha aqui, há os custos de captação, impostos, entre outros”, diz. Nesse sentido, avalia Sardenberg, as medidas se mostram ineficientes porque contribuem para elevar o spread bruto, mas não necessariamente elevam o spread líquido. Para ele, se houvesse aumento da Selic, os resultados seriam mais visíveis. “O custo de captação e o spread bruto subiriam, mas o spread líquido também”, afirma.
Sardenberg concorda com avaliação feita pelo presidente do BC, Henrique Meirelles, por ocasião da primeira elevação do compulsório, no começo do ano, de que medidas dessa natureza são um substituto imperfeito do aumento da taxa de juros. Isso porque, de acordo com o economista da Febraban, os resultados não são tão potentes quanto os de um aperto monetário clássico, de alta de juros, que leva ao deslocamento de toda a curva. Apesar de demorar de seis a nove meses para fazer efeito, a elevação da Selic produz um resultado mais forte.
Segundo documento enviado pelo Banco Fibra, “o quadro inflacionário segue cada vez mais preocupante, tanto no horizonte de curto quanto no de médio prazo. No curto prazo, as pressões de alimentos devem manter os índices de preços ao consumidor pressionados, o que, em um ambiente de demanda doméstica superaquecida, coloca em risco também o cenário de médio prazo”, diz o comunicado do banco.

