Empresas investem mais em qualificação profissional

Mesmo com a diminuição do ritmo de contratações por conta da crise econômica, as empresas dos setores de mineração e siderurgia estão investindo pesado na formação de profissionais especializados. Com a expansão dos projetos nessas áreas, a demanda por mão de obra é grande e a saída encontrada pelas companhias tem sido apostar em programas de qualificação. Os números impressionam. Somente a Vale recrutou de janeiro a outubro do ano passado 19 mil trabalhadores – 14,5 mil deles no Brasil. A ThyssenKrupp CSA, que de 2007 até agora selecionou e formou 2,5 mil profissionais, abre anualmente 100 vagas qualificadas para a área de operação. E a ArcelorMittal, cuja rotatividade de pessoal é de 3% a 4% ao ano, busca anualmente 500 novos profissionais.

Segundo Onildo Marini, diretor executivo da Agência para o Desenvolvimento Tecnológico da Indústria Mineral Brasileira (Adimb), o alto nível de especialização é a maior dificuldade do setor. Da prospecção ao plano de desenvolvimento são realizados estudos aerogeofísicos, topográficos e geológicos que exigem a contratação de geólogos especializados em sensoriamento remoto e topografia, além de geofísicos, químicos e geoquímicos, entre outras atividades.

“Geólogos e geofísicos são requisitados por outros segmentos da economia. É dura, por exemplo, a concorrência com o setor de óleo e gás. A Petrobras busca o engenheiro ainda na universidade. E as empresas de mineração têm que ser competitivas com salários equivalentes”, observa Marini. O diretor da Adimb explica que a demanda de contratação é cíclica na mineração. “Na crise de 98, quando houve forte queda no preço das commodities, a procura por mão de obra caiu bastante. Em 2010, houve incremento no preço e reaquecimento. Mas este ano houve nova queda e as empresas estão colocando o pé no freio”, justifica.

Esse cenário atinge também a siderurgia. A ArcelorMittal reduziu à metade as contratações no segundo semestre, informa o vice-presidente de RH, Ricardo Garcia. Segundo ele, a grande lacuna do setor é de engenheiros metalúrgicos, e já há escassez de engenheiros mecânicos. A empresa investiu nos últimos três anos R$ 45 milhões em capacitação e participa do Consórcio Mínero Metalúrgico, ao lado da Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais e empresas da região, para fomentar a formação de mão de obra. A iniciativa se dá por meio de convênios com universidades federais mineiras, parceria com o Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai) e Centros de Formação Técnica. Internamente, a siderúrgica promove programas de trainee – na última edição, 100 engenheiros foram enviados para plantas em alguns dos 60 países em que a empresa opera. “Eles já estão fora há 2 anos e meio e em janeiro começaremos a repatriá-los para suprir as demandas do Brasil”, anuncia.

No início de sua operação no país, a ThyssenKrupp CSA capacitou 1,8 mil profissionais, um terço deles com treinamento intensivo no Senai. A empresa ainda contratou 800 profissionais de áreas técnicas e 280 com algum conhecimento siderúrgico, beneficiados com treinamento na Alemanha, de 12 a 18 meses.

Hoje, segundo Valdir Monteiro, diretor de recursos humanos, a empresa avalia novo modelo de formação e capacitação, o de universidade dual: o aluno passa metade do curso na universidade e os últimos anos aprendendo na prática na siderúrgica, já como contratado. “Estamos conversando com uma universidade alemã e com empresas no Brasil, como a Gerdau, interessada no projeto. Mas minha dificuldade hoje é de retenção. Em 12 meses, perdemos 12 engenheiros para o setor de petróleo”, lamenta.

A Associação Brasileira de Metalurgia, Materiais e Mineração (ABM), que atua na difusão do conhecimento técnico, oferece cem cursos de capacitação por ano. Entre eles, pós-graduação lato sensu em metalurgia, mineração, transformação mecânica e laminação, em parceria com a PUC-MG e a Universidade Federal de Ouro Preto. Em 2009, desenvolveu o estudo Talentos da Siderurgia.