Cresce a procura por diretores de governança

A governança corporativa está conquistando mais espaço nos organogramas das empresas. Antes restritos às salas de reuniões do conselho de administração, temas como gestão de processos e controle de riscos passaram a ser responsabilidade também da estrutura interna das corporações. O resultado desse movimento tem sido o surgimento, nos últimos anos, de gerências e diretorias dedicadas ao assunto, além do aumento da demanda por executivos na área.

“A valorização de profissionais especializados em governança corporativa hoje pode ser comparada ao boom dos executivos de relações com investidores (RI) antes da crise”, afirma João Marco Adamo, headhunter da consultoria Michael Page. A remuneração de um gerente da área varia entre R$ 15 mil e R$ 20 mil e já chegou a patamares similares aos dos seus pares de RI.

Segundo ele, o fato de o Brasil ser um destino de investimentos globais fez com que as companhias se preocupassem com a organização de suas políticas internas e processos. “A criação de áreas de governança é uma resposta a demandas do conselho de administração ou da matriz, no caso das multinacionais. Ter uma estrutura como essa aumenta o valor da empresa e atrai investimentos”, explica Adamo.

Luiz Martha, coordenador de pesquisas do centro de conhecimento do Instituto Brasileiro de Governança Corporativa (IBGC), afirma que encontrar empresas com áreas específicas para cuidar da governança era uma tarefa difícil há cinco anos. “Nessa época, havia apenas uma, que foi a única durante muito tempo”. Nos últimos dois anos, porém, as companhias começaram a criar seus departamentos. “É uma tendência recente. As empresas ainda não sabem como estruturar essa área, estão em processo de aprendizado”, analisa.

Martha explica que as novas diretorias de governança não seguem um padrão e podem agregar áreas diversas de acordo com sua estratégia. Segundo ele, cada companhia dá uma atribuição diferente para o departamento e muitas o usam apenas para secretariar o conselho. Já outras têm um papel mais amplo de avaliação, implementação e fiscalização de políticas corporativas. “É comum que a estrutura de governança englobe profissionais de áreas como auditoria, gestão de risco e sustentabilidade”, afirma Marcelo Coimbra, coordenador do curso sobre governança corporativa da Fipecafi.

Esse é o caso da Icatu Seguros que, em 2009, reuniu as estruturas de compliance, auditoria interna e ouvidoria para montar sua diretoria de governança corporativa. No ano passado, Márcio Câmara, até então superintendente do grupo Icatu e presidente do comitê de auditoria da seguradora, foi convidado para assumir o cargo, que passou a incorporar também a equipe jurídica e a de segurança da informação. “Elas continuam se reportando ao conselho e à diretoria de TI, mas funcionalmente estão sob a estrutura de governança corporativa”, explica Câmara.

Hoje, a diretoria tem 40 profissionais, parte deles contratados recentemente. “O objetivo é evitar que erros aconteçam e garantir que todas as operações da empresa respeitem as regulações do mercado, as normas internas e as boas práticas”, diz, justificando a reunião de profissionais de diferentes procedências dentro da estrutura de governança. “Somos uma equipe de especialistas que trabalha em conjunto. Temos cinco departamentos jurídicos diferentes e dois de compliance.”

A formação dos profissionais que atuam dentro das áreas de governança também é diversa. Segundo Adamo, da Michael Page, é mais comum encontrar advogados, economistas e administradores. “A graduação acadêmica não é o mais importante, mas sim a experiência”, afirma. Os mais valorizados são aqueles com passagens por áreas como auditoria, gestão de processos e de pessoas. “Competências como liderança, senso de análise e urgência e multidisciplinaridade têm sido muito demandadas pelas empresas”, explica.