Dez maiores gestores de investimentos controlam 8,3 PIBs do Brasil

As dez maiores empresas gestoras de investimento do mundo administravam, ao final do ano passado, um total de US$ 17,4 trilhões, montante 20% superior ao PIB dos Estados Unidos, maior economia do mundo, e equivalente a 8,3 vezes o PIB brasileiro.

Segundo um levantamento feito pela consultoria Investment & Pensions Europe (I&PE), os 400 maiores gestores de investimentos do mundo administram recursos equivalentes a US$ 53,6 trilhões, valor 30% maior que a soma dos PIBs das dez maiores economias do mundo. Apenas a maior gestora de investimentos do mundo, a BlackRock, gerencia sozinha US$ 3,8 trilhões em ativos, soma superior ao PIB da Alemanha, a quarta maior economia do mundo.

Esses dados são uma indicação da influência que decisões tomadas por essas empresas podem ter sobre os mercados financeiros e, em última instância, sobre os países que se veem obrigados a tomar medidas voltadas a acalmar os mercados. As empresas gestoras são responsáveis por analisar as condições de mercado e tomar decisões de investimentos para os fundos formados por seus clientes ou por outras instituições que usem seus serviços. “É quase impossível diferenciar investimentos normais de especulação, mas em situações de grande volatilidade nos mercados, como o atual, qualquer grande movimento pode ser interpretado de uma maneira mais estridente”, observa Juan Pablo Pardo-Guerra, professor do Departamento de Sociologia da London School of Economics e especialista em mercados financeiros.

Ele cita o caso do chamado “flash crash” da Bolsa de Nova York, ocorrido no dia 6 de maio do ano passado, quando uma ordem de venda de uma grande quantidade de ações por uma gestora de fundos, em meio às tensões sobre a crise na Grécia, provocou uma reação em cadeia que derrubou o índice Dow Jones em mais de 9% em poucos minutos, apenas para voltar ao seu patamar inicial poucos minutos depois. Ele observa, no entanto, que as decisões dos grandes gestores de investimentos seguem a lógica do lucro para atender aos interesses de seus clientes, que podem ser milhares ou até milhões de pessoas ou empresas diferentes.

Liam Kennedy, editor das publicações da I&PE, usa um argumento semelhante. “Na maioria dos casos, as empresas gestoras de ativos estão representando os interesses dos investidores”, comenta. “Se um determinado fundo decide não comprar mais títulos da dívida americana, por exemplo, e seus clientes não concordam com essa decisão, eles podem levar seu dinheiro para outro lugar. Essas empresas são muito transparentes no que fazem”, diz.

O levantamento da I&PE com os 400 maiores gestores de fundo do mundo mostra que entre dezembro de 2009 e dezembro do ano passado essas empresas registraram um aumento de 24% no total de ativos sobre sua administração, mesmo num período de crise, com preocupações crescentes sobre a capacidade de países europeus pagarem suas dívidas e com a capacidade de recuperação da economia mundial após a crise de 2008.

Segundo Kennedy, esse aumento representa tanto um aumento em aplicações feitas por investidores quanto o bom desempenho dos investimentos conseguido pelos gestores.”É possível lucrar mesmo com os mercados em queda”, observa Antonio Mele, professor do departamento de Finanças da London School of Economics. “Os gestores de fundos não se apoiam nos movimentos do mercado, não dependem da estabilidade. Para eles, volatilidade é vida”, diz. “Também é possível lucrar com mercados em queda”, observa.

Para Mele, é possível, “em teoria”, haver manipulação no mercado, com movimentos especulativos. Ele observa, porém, que se isso ocorresse seria possível identificar a fonte da especulação com facilidade. “É possível identificar de onde vem o problema, quem está comprando ou vendendo em grandes quantidades”, diz.