Indústria e comércio criticam manutenção dos juros

Entidades dos setores da indústria e do comércio criticaram a manutenção da taxa básica de juros (Selic) no patamar de 10,75% ao ano, interrompendo uma sequência de três altas. Em nota divulgada na sequência do anúncio do Comitê de Política Monetária (Copom), a Confederação Nacional da Indústria (CNI) disse que a manutenção frustrou suas expectativas. “Esperávamos que o ciclo de redução dos juros começasse na reunião que terminou há pouco”, afirma no texto o presidente em exercício da CNI, Robson Andrade. Ele cita que a perda do ritmo da inflação e da atividade econômica é um fator que já permite ao Banco Central (BC) afrouxar a política monetária.

Para a Federação do Comércio de São Paulo (Fecomercio), a manutenção de juros deveria ter sido tomada há quatro meses, quando o Copom voltou a elevar a taxa Selic. “Na prática, teria sido muito mais adequado não ter promovido aumento da Selic no início do ano. Desde então, o país está gastando uma fábula com juros, enquanto a inflação não se move há mais de quatro meses”, afirma, também em nota, o presidente da Fecomercio, Abram Szajman. Tanto a entidade do comércio quanto a instituição da indústria defenderam uma retomada dos cortes da Selic já na próxima reunião do comitê, de forma a estimular um reaquecimento da atividade econômica.

Ao justificar a decisão, o Copom disse que observa uma continuidade no processo de redução de riscos inflacionários, ao mesmo tempo em que não prevê a manutenção do nível de inflação registrado nos últimos meses em “um futuro próximo”.

A Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) avaliou que o comitê “mais uma vez” errou em seu diagnóstico. “A próxima ata do Copom, por justiça, deveria começar com a frase: Desculpem, mas erramos”, diz a entidade patronal. No texto, a Fiesp argumenta que houve um arrefecimento da demanda a partir do término de incentivos fiscais adotados durante a crise. Além disso, a entidade diz que a produção industrial mostrou queda nos três meses do segundo trimestre. “A utilização de capacidade produtiva está estável e, até mesmo, com sinal de queda em razão da alta de investimentos”, afirma a Fiesp.

Mas nem todos manifestaram posição contrária à decisão de política monetária. Alencar Burti, presidente da Associação Comercial de São Paulo (ACSP), disse que a manutenção foi uma ação “inteligente”. “Não desejamos medidas agora que possam interromper o ciclo de crescimento que a nossa economia está obtendo”, comentou. Já a Federação do Comércio do Rio de Janeiro (Fecomercio-RJ) disse que o Copom “acertou”, apesar de o Brasil seguir com os juros reais, aqueles que descontam a inflação, mais altos do mundo.