Brasileiros estão no limite do endividamento

Depois de se empanturrarem com as facilidades oferecidas por bancos e lojas, as famílias brasileiras decidiram botar um pé no freio no endividamento. Ao fazerem as contas, perceberam que a renda, mesmo em alta, já não comporta mais tantas prestações. Foi o que deixou evidente ontem o Banco Central.

Nos últimos três meses, as concessões de crédito para a compra de eletrodomésticos e eletrônicos recuaram 5,7%. Nos financiamentos de veículos, a queda chegou a 18,2%. Já os empréstimos pessoais e o cheque especial encolheram 9,9% e 4,6%, respectivamente. “Tudo indica que está havendo uma acomodação na tomada de dívidas pelas famílias”, disse o chefe do Departamento Econômico do BC, Altamir Lopes.

Até mesmo o crédito consignado, com desconto em folha de pagamento, desacelerou. O motivo foi o mesmo: os maiores demandadores dessa linha de crédito, os servidores públicos e os aposentados e pensionistas do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS), quase esgotaram o limite máximo de 30% de comprometimento dos salários com mensalidades.

Em junho, o saldo acumulado desses débitos avançou apenas 1,5%, refletindo basicamente a incorporação de juros. Em contrapartida, o consignado destinado aos trabalhadores da iniciativa privada deu um salto bem maior: 4,6% no mês e 14,1% no trimestre. Mas há uma razão para isso: a base de comparação é muito baixa. “Só agora os empregados da iniciativa privada estão tendo acesso a esse tipo de crédito”, afirmou Altamir. Ele explicou que o acesso ao crédito com desconto em folha sempre foi mais fácil para os servidores e os aposentados devido à estabilidade nos rendimentos. Os demais trabalhadores necessitam de acordo das empresas com os bancos para acessar os financiamentos.

Na avaliação de Altamir, é grande a preocupação dos consumidores em não ficar inadimplentes. Por isso, a tendência, daqui por diante, é de o volume total de crédito às pessoas físicas crescer muito pouco, até porque muitos anteciparam compras nos primeiros meses do ano, usufruindo dos benefícios fiscais dados pelo governo. Na outra ponta, porém, haverá um pouco mais de interesse das empresas em financiamentos. Foi, inclusive, esse movimento o motivo principal de o total de empréstimos na economia ter passado, de maio para junho, de R$ 1,49 trilhão para R$ 1,53 trilhão.

“Está havendo uma mudança de comportamento. Enquanto o volume de crédito às empresas cresce a uma taxa expressiva, para as famílias, os indicadores são de estabilidade”, reconheceu o economista do BC. Ele chamou a atenção para outro dado relevante: mais conscientes, os brasileiros estão cortando, principalmente, as operações mais caras, como o cheque especial, cujas taxas saltaram 4,8 pontos percentuais de maio para junho, cravando inacreditáveis 165,1% ao ano.

Essa significativa elevação dos juros do cheque especial é explicada por Altamir pelo aumento do risco dos bancos. “Só as famílias que não conseguiram migrar para um crédito mais barato permanecem no limite do especial, o que resulta em um risco maior para as instituições financeiras”, observou. O técnico destacou ainda que a redução no crescimento do crédito às pessoas físicas também deve ser creditada ao aperto na política monetária promovido pelo BC. Ao elevar a taxa básica de juros (Selic) desde abril, o BC está tentando acomodar a expansão da economia e evitar a disparada da inflação.

Apesar do cenário traçado pelo BC, as microempresárias Vanessa Caroline Brito, 31 anos, e Valéria Brito, 63, continuam dispostas a usufruir da efervescência da oferta de crédito no Brasil, mesmo que com moderação. No primeiro semestre, compraram um carro financiado e, agora, buscam um fogão novo. “Se não conseguirmos um bom desconto, compraremos parcelado”, disse Vanessa. A meta, porém, é quitar todas as prestações até o fim deste ano. “Queremos chegar a dezembro sem nenhuma dívida. Todo mundo sabe que, em algum momento, é preciso pôr o pé no freio para conseguir continuar compr