Nos últimos anos, 30 milhões de consumidores tiveram acesso ao crédito. Mas muitos se complicaram na hora de administrar as contas. Esse é um dos desafios da nova classe média.
Depois de muitos anos dirigindo o táxi alheio, Joel Cardoso conseguiu, finalmente, comprar um carro. Morador da Brasilândia, na Zona Norte de São Paulo, ele ganha pouco mais de três salários mínimos, tem casa própria, celular, TV e DVD. E, como muitos outros representantes da nova classe média, tem, também, dívidas. “Eu, como sou motorista autônomo de táxi, financiei um carro. O carro começou a dar muita manutenção, e isso foi um dos imprevistos que houve. Ou eu arrumava o carro, ou pagava a prestação”, afirmou Cardoso.
Uma pesquisa da Federação dos Bancos mostra que o “imprevisto” é um item que, realmente, não faz parte do orçamento de quem ganha entre três e dez salários mínimos. Mas deveria ser. “As pessoas não têm muitas vezes a noção que ter um recurso guardado significa estar preparado para arcar com alguma emergência”, acredita Fabio Moraes, diretor de educação financeira da Febraban.
A pesquisa foi feita para conhecer o comportamento de um público que só recentemente teve acesso ao crédito. “São pessoas que têm necessidades específicas, uma lógica de necessidade de consumo, de demandas financeiras diferentes de outros segmentos da população”, diz Moraes. O estudo revela que esse consumidor costuma controlar gastos básicos como aluguel, água, luz, educação. Mas esquece de contas menores como um lanche e um presente. Não faz planejamento e só se sente endividado quando não consegue mais pagar as prestações. E fica inadimplente como o taxista Joel, que nunca se recuperou das dívidas do carro.
Não bastassem essas dívidas que foram se acumulando ao longo dos últimos anos, ele ainda começou, no final do ano passado, a reforma da casa. O dinheiro acabou e a obra ficou inacabada. O crédito terminou também. Com R$ 12 mil de dívidas, o nome dele foi parar no Serviço Central de Proteção ao Crédito (SCPC). Ele diz que a prioridade, agora, é limpar o nome. A obra vai esperar. “O nome é tudo”, justifica.

