Pô, meu, testemunhar um tsunami ao vivo? Eu não perderia essa de jeito nenhum. Mas antes, uma historinha.
Em 1971, o Clube de Roma, que estuda as consequências do crescimento econômico mundial, previu que o crescimento da humanidade seria limitado pelo esgotamento de fontes de energia não-renováveis e de minerais importantes, como o cobre, por exemplo. Usando um recurso sofisticado na época – computadores - levantaram a taxa de consumo de cobre nos 20 anos anteriores e projetaram os 20 anos futuros, contemplando as taxas de crescimento econômico esperadas. Conclusão: por volta do ano 2000 as reservas de cobre estariam esgotadas. O que o Clube de Roma não previu foi que, no final dos anos 1990, o sistema de cabeamento telefônico com fios de cobre passou a ser substituído por fibras óticas, de vidro, muitíssimo mais eficientes. E a matériaprima para as fibras óticas é o silício. Grosseiramente dizendo: areia, um dos elementos mais abundantes na natureza. E o cobre não acabou. Os precisos cálculos matemáticos dos especialistas deixaram de fora um detalhe: a engenhosidade do homem, que a cada dia cria novas soluções para velhos problemas.
Lembrei dessa história assistindo uma transmissão ao vivo da CNN que anunciava a chegada de um tsunami ao Havaí, após o terremoto que abalou o Chile no final de fevereiro de 2010. A câmera mostrava uma bonita praia com as ondas batendo tranquilamente, enquanto o locutor dizia que, a qualquer minuto, o tsunami chegaria. E eu fiquei na expectativa. O povo debandou para lugares altos para escapar da onda gigante. E então surgiram mais umas ondinhas e o locutor disse: “os especialistas disseram que já começou”. Agora vem! E assim foi... "Agora vem! Já começou! A qualquer momento"... Até que após mais de uma hora a transmissão foi encerrada. Sem tsunami no Havaí. Um fiasco.
E enquanto isso, no Chile, a história foi diferente. Um tsunami arrasou parte do litoral, sem que os especialistas previssem. Previram no Havaí, não teve. Não previram no Chile, teve.
As interações que envolvem os sistemas econômicos, ambientais e sociais são por demais complexas. Não existem fórmulas prontas. Não existem certezas, apenas dados que os homens juntam para tentar tirar conclusões. Mesmo com milhares de técnicos, computadores, satélites, modelos matemáticos e anos acumulados de conhecimento, os homens falham miseravelmente em suas previsões. Erros e acertos, é assim que funciona a ciência, o que explica o tsunami que não chegou e o cobre que não acabou. O mundo da ciência, apesar da matemática e da física, não é exato. Lida com probabilidades e na maior parte das vezes é surpreendido por um acontecimento novo, uma reação inesperada. Até mesmo pelo gênio dos homens. É no gênio que tira as conclusões da análise dos dados frios que reside o valor da ciência. Onde um medíocre nada vê, um gênio pode ver o futuro.
Portanto, errar continua sendo muito humano. O problema é o que fazer depois do erro. Quem tem cérebro, aprende. Quem não tem, ou o tem a serviço de projetos de poder, projetos comerciais ou ideologias, faz diferente. Mesmo sem conseguir prever a chegada de um tsunami na esquina, continua dizendo que os oceanos vão ficar seis graus mais quentes daqui a cem anos.
Nascido em Bauru, S.P., em 1956, formou-se em Comunicação em 1977 pela Universidade Mackenzie em São Paulo.
A experiência como jornalista e os 26 anos que atuou como executivo de uma multinacional (12 dos quais na função de Diretor) propiciaram uma visão privilegiada da dinâmica do mundo dos negócios e do comportamento das pessoas que desempenham papéis de liderança. Cartunista premiado, tornou-se colunista de vários sites, revistas e jornais, além de produzir e apresentar o programa Café Brasil na rádio Mundial FM (95,7 FM) em São Paulo e apresentar comentários diários no Transnotícias, programa da rádio Transamérica.
Lançou em julho de 2002 seu terceiro livro , O MEU EVEREST, que descreve sua aventura de caminhar em abril de 2001 até o campo base do Everest, no Nepal. Em 2003 lançou seu 4º livro , BRASILEIROS POCOTÓ - Reflexões sobre a Mediocridade que Assola o Brasil, já na sua 7º edição. E em 2009 lançou NÓIS...QUI INVERTEMO AS COISA, uma bofetada nos brasileiros que parece que perderam a capacidade de indignar-se com os desmandos políticos, sociais e empresariais do país.
Mantém hoje um portal bastante popular (www.lucianopires.com.br) com enquetes, fórum, artigos, vídeos, rádio e uma variedade de conteúdo focado nas questões da educação e da luta contra o emburrecimento do Brasil.
A partir do contéudo de seus textos, Luciano transformou-se num dos grandes palestrantes brasileiros, que marca suas apresentações pelo bom humor, idéias provocativas e uso extensivo dos recursos multimídia.
- Se me perguntarem quem sou e o que faço, digo que sou um cartunista interessado na provocAÇÃO, inspirAÇÃO, inovAÇÃO e na transformAÇÃO das pessoas. Reflexão com ação. Só assim venceremos a mediocridade.
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