O filme Avatar, que está estourando os recordes de bilheteria, tem um enredo tão antigo quanto a história da Humanidade. Um soldado é enviado para aprender os costumes dos inimigos e facilitar que eles sejam derrotados. Mas se apaixona por uma inimiga e muda de lado. Um dos momentos fascinantes é quando o soldado aprende a saudação dos inimigos: ?I see you?. ?Eu vejo você?. Esse ?ver? não quer dizer ?enxergar?, mas conectar-se com o interior do outro. É muito bonito.
Lembrei-me do ?I see you? quando pensei em escrever um texto sobre o Haiti. Puxa, mas todo mundo já escreveu sobre o terremoto! Então o Cônsul Geral do Haiti em São Paulo surge dizendo que a tragédia foi boa, pois assim o mundo prestaria atenção neles...
Pois é. Como são insignificantes nossos vizinhos miseráveis, não? Só sabemos deles quando uma tragédia acontece. Foi preciso um terremoto gigante pra gente dizer aos haitianos:
- I see you.
Finalmente o mundo olhou pra eles. Mas como é que olhamos pra eles?
A televisão já nos treinou para as tragédias, portanto imagens de corpos soterrados, resgates dramáticos e brigas por comida até chocam, mas já não estarrecem. São parte de uma estética familiar. Na revista Veja sobre o terremoto, por exemplo, entre a foto do corpo abandonado de uma criança sobre um pneu e a foto dos destroços de um prédio, havia um milionário encarte de seis páginas de uma montadora, em papel especial e cheio de cores: compre um carro novo!
Será que vemos o Haiti como um espetáculo?
E o calhorda embate político ideologizando a tragédia e suas conseqüências? O mundo contra os Estados Unidos ? e seria contra quem? ? que teriam enviado para o Haiti soldados e dinheiro demais, além de tomar conta da coordenação. E o que deveria ser uma ajuda humanitária sem coloração política transformou-se em mais um embate contra o imperialismo ianque. Pergunto se àquele garoto que perdeu a família e está passando fome, essa discussão interessa.
Será que vemos o Haiti como ferramenta política?
Poucos dias após a tragédia, a Embaixada do Haiti em Brasília recebeu pedidos de mais de 200 brasileiros interessados em adotar uma criança. Tenho uma infinita admiração por quem escolhe adotar um filho, mas não consigo deixar de pensar que, pretinho por pretinho, o Brasil tem milhares. E branquinhos. E pardinhos. Todos vivendo sua tragédia particular, precisando de comida, de um lar, de educação e de amor. Mas nenhum deles tem a sorte ? olhe só, ?sorte?- de um terremoto como tiveram os órfãos do Haiti.
Será que vemos o Haiti como uma oportunidade?
Pois é. Nossos vizinhos miseráveis são irrelevantes, só sabemos deles quando uma tragédia acontece.
Diferente do Avatar, nosso ?I see you? para os haitianos não é o de um ser que conecta-se com outro. É o do telespectador que, no intervalo comercial, tem certeza que a tragédia só acontece com os outros.
Nascido em Bauru, S.P., em 1956, formou-se em Comunicação em 1977 pela Universidade Mackenzie em São Paulo.
A experiência como jornalista e os 26 anos que atuou como executivo de uma multinacional (12 dos quais na função de Diretor) propiciaram uma visão privilegiada da dinâmica do mundo dos negócios e do comportamento das pessoas que desempenham papéis de liderança. Cartunista premiado, tornou-se colunista de vários sites, revistas e jornais, além de produzir e apresentar o programa Café Brasil na rádio Mundial FM (95,7 FM) em São Paulo e apresentar comentários diários no Transnotícias, programa da rádio Transamérica.
Lançou em julho de 2002 seu terceiro livro , O MEU EVEREST, que descreve sua aventura de caminhar em abril de 2001 até o campo base do Everest, no Nepal. Em 2003 lançou seu 4º livro , BRASILEIROS POCOTÓ - Reflexões sobre a Mediocridade que Assola o Brasil, já na sua 7º edição. E em 2009 lançou NÓIS...QUI INVERTEMO AS COISA, uma bofetada nos brasileiros que parece que perderam a capacidade de indignar-se com os desmandos políticos, sociais e empresariais do país.
Mantém hoje um portal bastante popular (www.lucianopires.com.br) com enquetes, fórum, artigos, vídeos, rádio e uma variedade de conteúdo focado nas questões da educação e da luta contra o emburrecimento do Brasil.
A partir do contéudo de seus textos, Luciano transformou-se num dos grandes palestrantes brasileiros, que marca suas apresentações pelo bom humor, idéias provocativas e uso extensivo dos recursos multimídia.
- Se me perguntarem quem sou e o que faço, digo que sou um cartunista interessado na provocAÇÃO, inspirAÇÃO, inovAÇÃO e na transformAÇÃO das pessoas. Reflexão com ação. Só assim venceremos a mediocridade.
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