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Cotidiano
6/7/2010
O jornal de ontem

Quando criança, na casa de meu avô Duarte, eu invariavelmente me encontrava frente a um exemplar do jornal O Estado de São Paulo de domingo. E uma coisa que me atraía muito nele era a tirinha do Reizinho.

Com o tempo fui aprendendo a apreciar aquele calhamaço, mas uma coisa sempre me incomodou. Os caras faziam um esforço tremendo para produzir aquele jornalzão que, 24 horas depois, seria o jornal de ontem. Velho, ultrapassado, sem validade, destinado a embrulhar carne ou peixe (sim, naquela época isso era normal), a ser vendido como papel velho. E todo o esforço começava outra vez, pra morrer no dia seguinte.

Quando comecei minha vida profissional, essa sensação do “vale por 24 horas” me assombrava. Meu trabalho era o cartum, eu passava horas bolando a idéia e outro tanto passando para o papel. Publicava o resultado no jornal e... deu. Tinha que começar tudo de novo. Aquilo me parecia burro, um desperdício. Para mim era necessário que o esforço inicial de geração de conteúdo fosse multiplicado. O cartum não podia durar apenas 24 horas. O texto não podia “ficar velho” depois de publicado.

Um dia virei executivo do segmento de autopeças. Mesmo que minha área fosse a comunicação, os processos daquela grande indústria me rodeavam, e logo reparei que alguns conceitos seriam úteis, especialmente uma coisa que “eles” chamavam de “assets management” ou “gerenciamento de ativos”.

Sendo bastante simplista, o “gerenciamento de ativos” é uma atividade que procura tirar o máximo de cada máquina, de cada processo, de cada propriedade, de cada colaborador. Ele procura eliminar as duplicidades. Por exemplo, se duas fábricas produzem um produto similar, o gerenciamento de ativos é a prática que estuda a possibilidade das duas se transformarem numa só. Assim, duas cozinhas viram uma. Duas seguranças, uma. Dois RHs, um. Dois jardineiros, um. Duas máquinas de café, uma só, etc etc etc.

Apliquei o conceito ao trabalho de gerador de conteúdo e hoje minha maquininha funciona assim: toda sexta-feira produzo um artigo como este, que é distribuído pela internet e transforma-se numa coluna em dezenas de sites, jornais e revistas. Depois ele é resumido e transformado num comentário de rádio. O mesmo artigo também é usado como roteiro do podcast Café Brasil. Eventualmente, inspira um cartum. E ainda pode gerar um bloco para palestra. No final do ano, o artigo é agrupado a outros e transforma-se num livro.

Esse é meu método, o “gerenciamento de ativos” aplicado à geração de conteúdo. Quando sento para escrever este texto, tenho em mente o artigo, o comentário de rádio, o cartum, o roteiro do programa, a palestra e o livro. E o vídeo, o CD, a camiseta, o adesivo, o programa de televisão... Tudo a partir de um pequeno artigo. Aplicando o conceito de gerenciamento de ativos montei uma pequena linha de produção que já gerou em torno de 500 artigos, dois livros, centenas de cartuns, 200 podcasts (83 horas de programação), doze palestras e muito, muito mais.

Olhe em volta e veja quanto do trabalho que você está executando neste momento vai se transformar no jornal de ontem dentro de algumas horas. Tem que ser assim?

Meu método de gerenciar ativos reciclando, reaproveitando e adaptando, me ajudou a superar a “síndrome do jornal de ontem”.

E acabo de descobrir que o nome disso é sustentabilidade...

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Blog
Luciano Pires

Nascido em Bauru, S.P., em 1956, formou-se em Comunicação em 1977 pela Universidade Mackenzie em São Paulo.

A experiência como jornalista e os 26 anos que atuou como executivo de uma multinacional (12 dos quais na função de Diretor) propiciaram uma visão privilegiada da dinâmica do mundo dos negócios e do comportamento das pessoas que desempenham papéis de liderança. Cartunista premiado, tornou-se colunista de vários sites, revistas e jornais, além de produzir e apresentar o programa Café Brasil na rádio Mundial FM (95,7 FM) em São Paulo e apresentar comentários diários no Transnotícias, programa da rádio Transamérica.

Lançou em julho de 2002 seu terceiro livro , O MEU EVEREST, que descreve sua aventura de caminhar em abril de 2001 até o campo base do Everest, no Nepal. Em 2003 lançou seu 4º livro , BRASILEIROS POCOTÓ - Reflexões sobre a Mediocridade que Assola o Brasil, já na sua 7º edição. E em 2009 lançou NÓIS...QUI INVERTEMO AS COISA, uma bofetada nos brasileiros que parece que perderam a capacidade de indignar-se com os desmandos políticos, sociais e empresariais do país.

Mantém hoje um portal bastante popular (www.lucianopires.com.br) com enquetes, fórum, artigos, vídeos, rádio e uma variedade de conteúdo focado nas questões da educação e da luta contra o emburrecimento do Brasil.

A partir do contéudo de seus textos, Luciano transformou-se num dos grandes palestrantes brasileiros, que marca suas apresentações pelo bom humor, idéias provocativas e uso extensivo dos recursos multimídia.

- Se me perguntarem quem sou e o que faço, digo que sou um cartunista interessado na provocAÇÃO, inspirAÇÃO, inovAÇÃO e na transformAÇÃO das pessoas. Reflexão com ação. Só assim venceremos a mediocridade.

Site do Autor: www.lucianopires.com.br
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